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    Crédito privado no Brasil entra em nova fase

    O crédito privado no Brasil cresceu de forma expressiva nos últimos anos e passou a ocupar um papel cada vez mais relevante no financiamento das empresas.

    Com juros altos, investidores buscaram alternativas de renda fixa com maior potencial de retorno. Esse movimento impulsionou debêntures, FIDCs, crédito estruturado e outras operações ligadas ao mercado de capitais.

    Agora, porém, o cenário começa a mudar. As emissões perderam força, os investidores ficaram mais seletivos e o mercado passou a valorizar ainda mais qualidade dos ativos, governança e controle de risco.

    O crescimento do crédito privado no Brasil

    O avanço do crédito privado no Brasil acompanhou a busca dos investidores por alternativas ao crédito bancário tradicional.

    Nos últimos anos, empresas passaram a acessar o mercado de capitais para financiar suas operações, alongar dívidas, estruturar recebíveis e captar recursos fora dos bancos.

    Esse movimento também abriu espaço para casas especializadas, gestoras independentes e operações voltadas a nichos específicos, como infraestrutura, tecnologia, recebíveis e crédito estruturado.

    Na prática, o crédito privado deixou de ser apenas um complemento ao sistema bancário e passou a ocupar posição central em muitas estratégias de financiamento empresarial.

    Por que o crédito privado cresceu tanto?

    O crescimento foi impulsionado principalmente pelo cenário de juros altos.

    Quando a Selic sobe, muitos investidores passam a buscar produtos de renda fixa e crédito privado. Isso acontece porque esses instrumentos podem oferecer retornos mais atrativos em comparação a outras classes de ativos.

    Além disso, empresas encontraram no mercado de capitais uma alternativa para financiar suas atividades sem depender exclusivamente de bancos.

    Entre os instrumentos que ganharam destaque estão:

    • debêntures;
    • debêntures incentivadas;
    • FIDCs;
    • CRIs e CRAs;
    • operações com recebíveis;
    • crédito estruturado.

    Esse ambiente favoreceu a expansão do setor, mas também aumentou a necessidade de análise, controle e governança.

    Da renda variável ao crédito privado

    Durante o ciclo de juros baixos, fundos de ações, venture capital e private equity ganharam força.

    Com a alta dos juros a partir de 2022, o movimento se inverteu. Investidores passaram a priorizar ativos de renda fixa, especialmente instrumentos de crédito privado.

    Essa mudança ajudou a impulsionar uma nova geração de empresas, plataformas e estruturas voltadas ao crédito.

    No entanto, o crescimento acelerado também trouxe um desafio: diferenciar operações sólidas de estruturas frágeis ou mal documentadas.

    O mercado está mais seletivo

    Apesar do crescimento dos últimos anos, o crédito privado no Brasil começa a enfrentar uma fase mais seletiva.

    As emissões perderam ritmo, os investidores estão mais cautelosos e os spreads passaram a refletir maior percepção de risco.

    Quando o spread aumenta, significa que o investidor está exigindo um prêmio maior para financiar determinada empresa ou operação.

    Isso não indica necessariamente uma crise. Em muitos casos, pode representar um amadurecimento do mercado.

    O capital continua disponível, mas tende a buscar operações com melhor qualidade, documentação mais robusta e maior previsibilidade.

    O que a desaceleração sinaliza?

    A desaceleração das emissões mostra que o mercado está mais criterioso.

    Depois de um período de forte crescimento, muitas empresas já refinanciaram passivos, alongaram dívidas e reduziram custos financeiros. Com menos vencimentos próximos, a necessidade de novas captações pode diminuir.

    Além disso, episódios envolvendo grandes emissores aumentaram a atenção dos investidores sobre risco de crédito, governança e transparência.

    Por isso, o foco deixou de ser apenas retorno. Agora, o mercado também olha com mais atenção para a qualidade da operação.

    Qualidade dos ativos ganha importância

    Em uma fase mais seletiva, a qualidade dos ativos passa a ser determinante.

    No mercado de crédito privado, isso significa avaliar se os créditos têm lastro real, se os contratos estão bem estruturados, se os recebíveis são verificáveis e se a empresa consegue demonstrar a origem e a consistência dos fluxos financeiros.

    Para operações com recebíveis, esse cuidado é ainda mais importante.

    Recebíveis mal documentados, inconsistentes ou sem rastreabilidade podem aumentar o risco da operação e dificultar a análise por investidores, parceiros e credores.

    O papel dos recebíveis no crédito privado

    Os recebíveis têm papel relevante no avanço do crédito privado.

    Eles representam valores que empresas têm direito a receber no futuro e podem ser usados em operações de antecipação, securitização, fundos de direitos creditórios e crédito estruturado.

    Para empresas que atuam com crédito e recebíveis, esse mercado cria oportunidades, mas também aumenta o nível de exigência.

    Não basta ter volume de operações. É preciso manter controle sobre contratos, pagamentos, inadimplência, conciliação e documentação.

    Quanto maior a organização, maior a capacidade de sustentar uma operação segura e transparente.

    Governança passa a ser requisito

    O crescimento do crédito privado também trouxe mais atenção à governança.

    Investidores e participantes do mercado querem entender como a operação é conduzida, quais controles existem, como os riscos são monitorados e como as informações são registradas.

    Nesse contexto, governança não é apenas uma exigência formal. Ela influencia diretamente a credibilidade da empresa e a qualidade da operação.

    Empresas com processos claros, controles internos e informações confiáveis tendem a estar mais preparadas para atuar em um mercado seletivo.

    Regulação e custos também pesam

    Outro ponto importante é o aumento das exigências regulatórias.

    A Resolução CVM 175, por exemplo, ampliou responsabilidades no mercado de fundos e elevou a necessidade de controles de risco, liquidez e enquadramento regulatório.

    Embora a norma tenha como objetivo trazer mais segurança jurídica e alinhamento às práticas internacionais, ela também aumentou os custos operacionais para participantes do mercado.

    Esse movimento reforça uma tendência: crescer no crédito privado exige cada vez mais estrutura, tecnologia, controles e especialização.

    O que muda para quem atua com crédito e recebíveis?

    Para empresas que atuam com crédito, recebíveis, antecipação e securitização, a nova fase do mercado traz um recado claro.

    A profissionalização deixou de ser diferencial e passou a ser requisito.

    O mercado tende a valorizar empresas que conseguem demonstrar:

    • origem dos créditos;
    • contratos bem formalizados;
    • lastro comprovado;
    • conciliação financeira;
    • controle de inadimplência;
    • informações contábeis confiáveis;
    • gestão clara da carteira.

    Esses elementos ajudam a reduzir riscos e aumentam a confiança nas operações.

    Por que a contabilidade é estratégica nesse cenário?

    A contabilidade tem papel essencial na organização de operações de crédito e recebíveis.

    Ela ajuda a registrar corretamente receitas, custos, provisões, inadimplência, cessões, antecipações, carteira em aberto e movimentações financeiras.

    Além disso, a contabilidade permite acompanhar a rentabilidade real da operação e identificar possíveis inconsistências entre contratos, recebimentos e registros internos.

    Em um mercado mais seletivo, informações contábeis confiáveis deixam de ser apenas uma obrigação fiscal. Elas passam a fazer parte da própria estrutura de governança do negócio.

    Como se preparar para essa nova fase?

    Empresas que atuam com crédito privado e recebíveis precisam revisar seus processos internos.

    Isso envolve organizar documentos, melhorar controles, acompanhar indicadores, revisar contratos e garantir que a contabilidade reflita a realidade da operação.

    Também é importante manter uma visão clara sobre risco, inadimplência, fluxo de caixa e qualidade dos créditos.

    O mercado pode continuar oferecendo oportunidades, mas elas tendem a ser mais acessíveis para empresas preparadas e bem estruturadas.

    Leia também o nosso conteúdo sobre governança em operações com recebíveis.

    Conclusão

    O crédito privado no Brasil entrou em uma nova fase.

    Depois de anos de crescimento acelerado, o mercado começa a testar a capacidade das empresas de operar com mais qualidade, governança e controle.

    A desaceleração das emissões não significa o fim das oportunidades. Ela mostra que o capital está mais seletivo e que operações bem estruturadas tendem a ganhar mais espaço.

    Para quem atua com crédito e recebíveis, o momento exige atenção à qualidade dos ativos, rastreabilidade, contratos, conciliação e informações contábeis confiáveis.

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    Autor

    Mauro Morgan de Aguiar
    Auditor Independente, economista, contador, pós graduado em auditoria, controladoria e perícia contábil, com mais de 30 anos de experiência na prestação de serviços de auditoria, assessoria administrativa e financeira, consultoria, perícia judicial e perícia civil, avaliação de ativos e controle patrimonial, a cooperativas, hospitais, operadores de planos de saúde, construtoras e empresas públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos:

    Área Contábil: amplo domínio da lei 6.404/76, alterada pela Lei 11.638/07; alinhamento ao IRFS; Contabilidade Gerencial, de custos; Controladoria Financeira, Administração patrimonial, diagnósticos empresariais, consultoria de gestão de negócios; Auditoria Administrativa e Operacional; Assessoria e Consultoria em sociedades cooperativas; Impugnações fiscais a nível administrativo, acompanhamento de implantação de sistemas informatizados; Perícia contábil e Judicial; Palestrante em Faculdades.

    Área Econômica: Planejamento estratégico; Projetos de financiamento junto ao BNDES; Estudo de viabilidade econômica/financeira; Avaliação patrimonial; Avaliação de Marcas e Perícias Econômicas.

    Registrado no Conselho Regional de Contabilidade-CRC, Comissão de Valores Mobiliários- CVM, Instituto dos Auditores Independentes do Brasil-IBRACON, Organização das Cooperativas Brasileiras-OCB e Conselho Regional de Economia-CORECON.

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