Atualizado em: 18 de março de 2026
Consolidação no setor de FIDCs deve acelerar com tecnologia
A consolidação no setor de FIDCs tende a ganhar força nos próximos anos. O movimento é impulsionado por um cenário de juro alto, captação mais fraca e necessidade crescente de modernização. Ao mesmo tempo, o mercado continua expandindo em quantidade de veículos, o que aumenta a competição e exige mais eficiência operacional das administradoras.
Captação desacelera, mas número de fundos continua subindo
Os dados do setor mostram um contraste importante. Até novembro, os FIDCs acumularam captação de R$ 54,9 bilhões, bem abaixo dos R$ 143 bilhões registrados em 2024. Mesmo com a captação menor, o número de fundos seguiu crescendo.
- Quantidade de FIDCs no fim de 2024: 3.077
- Quantidade de FIDCs em novembro (ano seguinte): 3.761
- Aumento de veículos em menos de um ano: +684 fundos
Esse crescimento está associado ao aumento do interesse de pessoas físicas por FIDCs. O acesso foi ampliado após a Resolução CVM 175, que liberou o investimento para todos os perfis a partir de outubro de 2023.
“Explosão” de FIDCs e a tendência de “peneira” do mercado
Um estudo setorial com profissionais de nove instituições identificou um consenso: o mercado ainda deve passar por uma fase de seleção natural, na qual administradoras com menor estrutura podem perder espaço.
Segundo o levantamento, 66% dos executivos mencionaram a “explosão” no número de FIDCs. O salto citado foi de 2.382 fundos no fim de 2023 para 3.077 em dezembro de 2024, um crescimento de aproximadamente 29%.
Por que a estrutura do FIDC exige especialização
FIDCs são veículos com operação complexa. Eles exigem um nível de especialização maior do que muitos produtos tradicionais, principalmente quando envolvem crédito massificado e alta frequência de cessões.
- governança e controles consistentes;
- processos operacionais padronizados;
- gestão de risco e monitoramento de recebíveis;
- integração de dados e conciliações recorrentes.
Tecnologia vira critério central para competir
O estudo aponta que os fundos e administradoras que mais se destacam tendem a ser os que investem em tecnologia, automação e conhecimento técnico. Isso acontece porque o perfil do crédito mudou.
No início, muitos FIDCs eram voltados à compra de crédito de empresas. Hoje, cresce a presença de modalidades como crédito consignado e operações pulverizadas, com valores menores e grande volume de contratos. Esse modelo exige mais agilidade e maior capacidade de validação.
Operações ainda manuais aumentam custo e risco
Apesar do avanço do mercado, muitas estruturas ainda dependem de troca de arquivos e rotinas manuais. Isso cria gargalos para lidar com grandes bases de dados, conciliações e verificação documental.
Em um ambiente de maior volume e velocidade, operar sem integração e automação tende a aumentar:
- custo operacional (mais horas e retrabalho);
- risco de inconsistências em bases e conciliações;
- exposição a fraudes e falhas de validação.
Fraudes e validações: o “kit” que virou rotina
Outro ponto destacado é o aumento da sofisticação de fraudadores. Para aprovar operações, muitas casas precisam montar pacotes completos de comprovação, com itens como:
- documentos de identificação;
- kit de assinatura e validações;
- selfie, live e evidências digitais;
- comprovantes de desembolso e trilhas de auditoria.
Receber milhares desses kits sem tecnologia de validação automatizada aumenta o “gap” de controle. Isso pressiona as administradoras a modernizar processos ou buscar escala via fusões.
Por que a consolidação no setor de FIDCs tende a acontecer
Com margens mais apertadas e necessidade de investimento, ganha força a tendência de empresas com perfil tecnológico comprarem estruturas tradicionais. O resultado é um movimento de verticalização, combinando operação e tecnologia em uma única plataforma.
Na prática, a consolidação no setor de FIDCs tende a favorecer quem conseguir:
- reduzir fricções operacionais;
- ganhar escala para diluir custos de tecnologia;
- aprimorar governança e controles;
- aumentar eficiência na análise, validação e cobrança.
Risco macro e recuperações judiciais entram no radar
O estudo também aponta fatores de risco que aumentam a pressão por eficiência e gestão profissional. Entre os entrevistados, 44% citaram o aumento das recuperações judiciais como motivo de preocupação. Outros fatores mencionados incluem inflação, instabilidade política e endividamento das famílias e empresas em um contexto de juro alto.
Ao mesmo tempo, o mercado enxerga demanda consistente por crédito fora do “core” bancário. Entre os executivos ouvidos, 55% avaliam que grandes bancos não atendem empresas com profundidade, o que abre espaço para FIDCs e estruturas especializadas.
Crédito do Trabalhador pode ampliar o mercado em 2026
Uma expectativa para o próximo ciclo é o impulso de linhas como o Crédito do Trabalhador (consignado criado em março). O potencial de mercado é relevante: estima-se um universo de quase 40 milhões de trabalhadores do setor privado com carteira assinada que podem migrar parte do crédito para fora dos grandes bancos.
Por outro lado, esse produto tende a exigir mais eficiência das administradoras. Diferentemente de modelos com garantias mais fortes, há risco maior quando o tomador é demitido ou troca de emprego. Isso reforça a necessidade de:
- análise mais rigorosa do tomador e da empresa empregadora;
- processos de cobrança mais inteligentes e orientados por dados;
- controles operacionais e contábeis bem estruturados.
Conclusão
A consolidação no setor de FIDCs tende a ser consequência direta de três forças: captação mais seletiva, aumento de risco e necessidade de tecnologia. Em um mercado com milhares de veículos e operações cada vez mais massificadas, escala e eficiência deixam de ser opcionais. Elas viram requisito para competir.
Para administradoras, gestores e originadores, a preparação envolve governança, processos e controles. Também envolve uma estrutura contábil e regulatória que sustente o crescimento com segurança.
A consolidação no setor de FIDCs aumenta a complexidade contábil e regulatória das estruturas.
Leia também: FIDCs de crédito pessoal ganham força com novos fundos em 2025
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