Recuperação judicial da Coteminas usa FIDC e FII
A recuperação judicial da Coteminas trouxe ao mercado uma estrutura pouco comum para reorganizar dívidas e operacionalizar parte do pagamento aos credores.
Segundo informações divulgadas, a Companhia de Tecidos Norte de Minas estruturou o FIDC UPI Quirografários como um dos mecanismos previstos no plano de recuperação judicial homologado em maio de 2026.
O plano também contempla o FII UPI Imobiliária, criando uma estrutura interligada entre fundos para apoiar a reestruturação de passivos superiores a R$ 2 bilhões.
Na prática, o caso mostra como instrumentos do mercado de capitais podem ser utilizados em processos de reestruturação empresarial, especialmente quando há ativos, recebíveis e créditos a serem organizados de forma mais eficiente.
O que prevê a recuperação judicial da Coteminas?
A recuperação judicial da Coteminas prevê uma solução estruturada para lidar com um passivo bilionário.
Em vez de depender apenas da venda imediata de ativos ou de um parcelamento tradicional, o plano utiliza veículos de investimento para organizar parte da relação entre empresa, ativos e credores.
Entre os principais elementos da estrutura estão:
- criação do FIDC UPI Quirografários;
- utilização do FII UPI Imobiliária;
- pagamento de credores por meio de cotas;
- organização de ativos imobiliários e industriais;
- reestruturação de passivos quirografários;
- administração e gestão por instituições especializadas.
Esse desenho chama atenção porque combina recuperação judicial, fundos estruturados e governança de credores em uma mesma operação.
Como funciona a estrutura entre FIDC e FII?
A engenharia financeira da recuperação judicial da Coteminas interliga dois tipos de fundos: um FIDC e um FII.
Embora cada fundo tenha uma função específica, eles atuam de forma complementar dentro do plano.
FIDC UPI Quirografários
O FIDC UPI Quirografários foi estruturado para apoiar a reorganização dos créditos quirografários, ou seja, créditos sem garantia real.
De acordo com as informações divulgadas, o fundo foi constituído em maio de 2026, em formato de condomínio fechado, com prazo de duração indeterminado e subclasses de cotas sênior e subordinada.
A administração é exercida pelo Banco Daycoval, enquanto a gestão da carteira cabe à Tivio Capital DTVM.
Na prática, esse tipo de estrutura pode permitir que determinados credores recebam cotas do fundo como forma de pagamento ou reorganização de seus créditos.
FII UPI Imobiliária
O FII UPI Imobiliária, por sua vez, está relacionado à organização dos ativos imobiliários da companhia.
Esse fundo pode reunir imóveis, parques fabris ou ativos industriais, permitindo que os gestores administrem, vendam, aluguem ou utilizem esses bens como fonte de geração de valor para os credores.
Com isso, a recuperação judicial passa a depender menos da liquidação imediata dos ativos e mais de uma estrutura organizada para monetização ao longo do tempo.
Por que essa estrutura chama atenção?
A estrutura prevista na recuperação judicial da Coteminas chama atenção porque foge do modelo mais tradicional de pagamento aos credores.
Em muitos processos, a recuperação judicial envolve deságios, parcelamentos longos, venda direta de ativos e reorganização operacional.
No caso da Coteminas, o uso combinado de FIDC e FII permite uma alternativa mais sofisticada.
Essa estrutura pode trazer alguns objetivos importantes:
- evitar a venda imediata de ativos por valores pressionados;
- organizar créditos e ativos em veículos regulados;
- dar mais transparência à gestão dos recursos;
- permitir participação dos credores por meio de cotas;
- criar uma estrutura de governança para acompanhamento;
- facilitar a monetização gradual de ativos.
Como os credores podem ser pagos?
Um dos pontos centrais da notícia é a forma de pagamento aos credores.
Na estrutura proposta, parte dos créditos pode ser convertida em cotas de fundos. Isso significa que, em vez de receber imediatamente em dinheiro, determinados credores passam a deter participação em veículos que concentram ativos, créditos ou direitos econômicos.
Esse modelo pode permitir que o credor participe de uma possível recuperação de valor ao longo do tempo, dependendo da performance dos ativos e da execução do plano.
O que é uma UPI na recuperação judicial?
UPI significa Unidade Produtiva Isolada.
Em processos de recuperação judicial, uma UPI pode reunir determinados ativos ou operações de uma empresa em crise, permitindo sua venda, transferência ou organização de forma separada.
No caso da Coteminas, a lógica de UPI aparece vinculada à criação de estruturas como o FIDC UPI Quirografários e o FII UPI Imobiliária.
Isso ajuda a separar ativos e créditos em veículos próprios, facilitando governança, acompanhamento e eventual monetização.
O que esse caso mostra para o mercado?
A recuperação judicial da Coteminas mostra uma tendência relevante: o uso de fundos estruturados como ferramentas para reorganizar empresas em crise.
FIDCs, FIIs e outros veículos regulados podem cumprir funções importantes em operações complexas, especialmente quando há:
- passivos elevados;
- muitos credores envolvidos;
- ativos imobiliários relevantes;
- recebíveis ou créditos a organizar;
- necessidade de governança;
- busca por alternativas à liquidação imediata.
Para o mercado de capitais, o caso reforça como a estruturação financeira pode ir além da captação de recursos. Ela também pode ser usada como instrumento de reorganização, pagamento e preservação de valor.
Pontos de atenção da operação
Apesar da inovação, esse tipo de estrutura exige acompanhamento cuidadoso.
A interligação entre FIDC, FII, credores e ativos depende de governança, transparência e boa execução operacional.
Entre os principais pontos de atenção estão:
- avaliação correta dos ativos;
- regras de conversão dos créditos em cotas;
- liquidez das cotas recebidas pelos credores;
- governança dos fundos;
- qualidade da administração e gestão;
- comunicação com os credores;
- acompanhamento contábil e regulatório;
- execução do plano aprovado.
Em estruturas dessa complexidade, a contabilidade e os controles internos têm papel importante para garantir clareza sobre patrimônio, direitos, obrigações, receitas, despesas e movimentações.
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Conclusão
A recuperação judicial da Coteminas se destaca por utilizar uma estrutura interligada entre FIDC e FII para apoiar o pagamento de credores e a reorganização de um passivo superior a R$ 2 bilhões.
O caso mostra como fundos estruturados podem ser aplicados em situações complexas, envolvendo créditos, ativos imobiliários, governança e reestruturação empresarial.
Ao mesmo tempo, reforça que operações desse tipo exigem controle, conformidade e acompanhamento especializado.
A ContabilizaíBank possui mais de 22 anos de mercado e acompanha empresas que atuam com crédito, recebíveis e mercado de capitais, ajudando a transformar estruturas complexas em operações mais organizadas, seguras e transparentes.
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Autor
Mauro Morgan de Aguiar
Auditor Independente, economista, contador, pós graduado em auditoria, controladoria e perícia contábil, com mais de 30 anos de experiência na prestação de serviços de auditoria, assessoria administrativa e financeira, consultoria, perícia judicial e perícia civil, avaliação de ativos e controle patrimonial, a cooperativas, hospitais, operadores de planos de saúde, construtoras e empresas públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos:
Área Contábil: amplo domínio da lei 6.404/76, alterada pela Lei 11.638/07; alinhamento ao IRFS; Contabilidade Gerencial, de custos; Controladoria Financeira, Administração patrimonial, diagnósticos empresariais, consultoria de gestão de negócios; Auditoria Administrativa e Operacional; Assessoria e Consultoria em sociedades cooperativas; Impugnações fiscais a nível administrativo, acompanhamento de implantação de sistemas informatizados; Perícia contábil e Judicial; Palestrante em Faculdades.
Área Econômica: Planejamento estratégico; Projetos de financiamento junto ao BNDES; Estudo de viabilidade econômica/financeira; Avaliação patrimonial; Avaliação de Marcas e Perícias Econômicas.
Registrado no Conselho Regional de Contabilidade-CRC, Comissão de Valores Mobiliários- CVM, Instituto dos Auditores Independentes do Brasil-IBRACON, Organização das Cooperativas Brasileiras-OCB e Conselho Regional de Economia-CORECON.
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