FIDC do Atlético-MG: como funciona
O FIDC do Atlético-MG chamou atenção do mercado ao ser estruturado para antecipar R$ 90 milhões em receitas da SAF do clube.
A operação, coordenada pela Galapagos Capital, segue uma lógica parecida com o FIDC criado pelo São Paulo Futebol Clube, mas com diferenças importantes por causa da estrutura societária do Atlético-MG, que já opera como SAF.
Na prática, o fundo permite que a SAF antecipe receitas futuras, como patrocínios, direitos de arena, vendas de jogadores, mensalidades do programa de sócio-torcedor e contribuições do Clube Social.
O que é o FIDC do Atlético-MG?
O FIDC do Atlético-MG é um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios criado para captar recursos com investidores e antecipar receitas futuras da SAF.
Em vez de contratar um empréstimo bancário tradicional, o Atlético-MG cede ao fundo determinados recebíveis que terá direito a receber ao longo do tempo.
O fundo, por sua vez, emite cotas para investidores profissionais. Com os recursos captados, a SAF recebe dinheiro à vista e os investidores passam a ter direito ao fluxo financeiro dos créditos cedidos ao FIDC.
Por que o Atlético-MG criou um FIDC?
A criação do FIDC tem como objetivo antecipar receitas sem comprometer diretamente a estrutura de capital da SAF.
Para clubes e SAFs, esse tipo de estrutura pode ser uma alternativa ao crédito bancário tradicional, que costuma ter custo mais elevado e menos flexibilidade.
Com o FIDC, a SAF consegue transformar receitas futuras em liquidez imediata. Isso pode ajudar na reorganização financeira, no planejamento de caixa e na gestão de obrigações de curto e médio prazo.
Quais receitas podem lastrear o fundo?
Segundo a notícia, a operação terá como garantia receitas recorrentes da SAF.
Entre os recebíveis que podem compor esse tipo de estrutura estão:
- patrocínios;
- direitos de arena;
- vendas de jogadores;
- mensalidades de sócio-torcedor;
- contribuições do Clube Social.
Essas receitas funcionam como lastro do fundo. Ou seja, são os direitos creditórios que sustentam a operação e permitem que investidores avaliem o risco e o potencial de retorno.
Como funciona a antecipação de receitas?
A antecipação de receitas acontece quando uma empresa ou entidade recebe hoje um valor que só entraria no caixa no futuro.
No caso do FIDC do Atlético-MG, a SAF cede ao fundo direitos que tem a receber. Em troca, recebe recursos à vista.
Depois, os pagamentos relacionados a esses contratos passam a alimentar o fluxo do FIDC, que remunera os investidores conforme as regras da estrutura.
Esse modelo é comum no mercado de recebíveis e pode ser usado por empresas de diferentes setores. No futebol, ele ganha relevância porque clubes e SAFs possuem receitas recorrentes, mas muitas vezes precisam de liquidez para organizar passivos e financiar a operação.
O que é um FIDC?
FIDC é a sigla para Fundo de Investimento em Direitos Creditórios.
Esse tipo de fundo investe em recebíveis, que são valores que uma empresa tem direito a receber no futuro. Esses créditos podem vir de contratos, duplicatas, parcelas, aluguéis, prestação de serviços ou outras fontes de receita.
No caso de clubes de futebol, os recebíveis podem estar ligados a contratos de patrocínio, direitos de transmissão, direitos de arena, programas de sócio-torcedor e negociações de atletas.
O FIDC permite que esses créditos sejam organizados em uma estrutura financeira, com regras de governança, elegibilidade, cobrança e remuneração dos investidores.
Quais regras foram impostas ao fundo?
De acordo com a notícia, o regulamento do fundo estabelece critérios para proteger a qualidade dos recebíveis.
O FIDC só pode adquirir créditos considerados líquidos e certos. Além disso, há restrições para créditos vencidos, litigiosos ou vinculados a devedores com atrasos relevantes.
Também existe vedação à entrada de recebíveis fabricados ou operações intercompany, que poderiam distorcer o lastro do fundo.
Essa limitação é importante porque ajuda a garantir que a carteira seja formada por receitas reais, verificáveis e compatíveis com a finalidade da operação.
O que são recebíveis fabricados?
Recebíveis fabricados são créditos criados artificialmente, sem uma base econômica real ou com estrutura montada apenas para inflar o lastro da operação.
Em um FIDC, esse tipo de prática pode gerar distorções contábeis e aumentar o risco para investidores.
Por isso, o regulamento do FIDC do Atlético-MG veda esse tipo de crédito. A ideia é impedir que o fundo compre recebíveis que não representem receitas efetivas da SAF ou que tenham origem em transações artificiais entre empresas do mesmo grupo.
FIDC do Atlético-MG e FIDC do São Paulo: diferenças
O FIDC do Atlético-MG segue uma arquitetura semelhante à operação feita pelo São Paulo Futebol Clube, também estruturada pela Galapagos.
A diferença principal está na estrutura societária.
O São Paulo ainda opera como clube social, sem separação patrimonial formal entre a operação do futebol e o clube. Por isso, a operação envolveu covenants mais explícitos, como teto de gastos com futebol, superávit obrigatório, limite de endividamento e disciplina orçamentária.
Já o Atlético-MG atua como SAF. Isso significa que a operação do futebol está em uma empresa separada, com patrimônio segregado e estrutura societária própria.
Por esse motivo, o FIDC da SAF do Atlético-MG tende a ter regras mais flexíveis em relação à intervenção direta no comportamento financeiro do clube.
Por que a SAF muda a estrutura da operação?
A SAF cria uma separação entre o clube associativo e a empresa responsável pelo futebol.
Essa separação patrimonial facilita a organização de receitas, despesas, dívidas, investimentos e responsabilidades. Para investidores, isso pode trazer mais clareza sobre onde estão os ativos, os passivos e os fluxos financeiros.
No caso do Atlético-MG, a SAF já funciona como uma empresa independente. Por isso, o FIDC pode ser usado como mecanismo de monetização recorrente de receitas, com possibilidade de novas emissões no futuro.
O que essa operação mostra sobre o futebol brasileiro?
O FIDC do Atlético-MG mostra como o futebol brasileiro está se aproximando cada vez mais do mercado de capitais.
Clubes e SAFs passaram a buscar estruturas financeiras mais sofisticadas para antecipar receitas, organizar dívidas e profissionalizar a gestão.
Esse movimento também indica uma mudança na forma como as receitas do futebol são tratadas. Patrocínios, direitos de arena, vendas de atletas e programas de sócio-torcedor deixam de ser apenas entradas futuras de caixa e passam a ser ativos financeiros que podem ser estruturados.
Quais são os benefícios desse tipo de operação?
O uso de FIDC pode trazer alguns benefícios para clubes e SAFs.
Entre eles estão a antecipação de caixa, a redução da dependência de empréstimos bancários, a possibilidade de custo financeiro menor e a criação de uma estrutura com governança mais clara.
Além disso, o FIDC pode permitir que a SAF planeje melhor seu fluxo de caixa, especialmente em um setor marcado por receitas variáveis, folha salarial elevada e necessidade constante de investimento esportivo.
Quais são os riscos e cuidados?
Apesar das vantagens, a operação exige atenção.
O principal cuidado está na qualidade dos recebíveis cedidos ao fundo. Se os créditos não forem bem avaliados, se houver inadimplência ou se as receitas projetadas não se confirmarem, a estrutura pode sofrer pressão.
Também é importante observar a governança, a transparência das informações, a segregação patrimonial, a disciplina financeira da SAF e os critérios de elegibilidade dos recebíveis.
Um FIDC bem estruturado depende de lastro real, contratos claros, controles contábeis adequados e acompanhamento constante da carteira.
Por que o tema importa para o mercado de recebíveis?
A notícia é relevante não apenas para o futebol, mas para todo o mercado de recebíveis.
O caso mostra como diferentes setores podem usar FIDCs para transformar receitas futuras em liquidez imediata.
Para empresas que atuam com securitização, factoring, crédito estruturado, fundos de investimento e antecipação de recebíveis, o exemplo reforça a importância de governança, lastro, documentação e qualidade dos créditos.
Como a contabilidade entra nesse processo?
A contabilidade tem papel essencial em estruturas como o FIDC do Atlético-MG.
Ela ajuda a organizar a identificação dos recebíveis, a conciliação dos fluxos financeiros, o registro das cessões, o acompanhamento das receitas e a análise dos impactos no caixa e no resultado.
Também contribui para dar mais transparência à operação, especialmente quando há investidores, obrigações contratuais e receitas futuras envolvidas.
Em estruturas com direitos creditórios, a informação contábil precisa ser clara, rastreável e compatível com os contratos que sustentam a operação.
Leia também o nosso conteúdo sobre FIDCs e duplicatas escriturais: o que muda?
Conclusão
O FIDC do Atlético-MG representa mais um passo na aproximação entre futebol, SAFs e mercado de capitais.
Ao estruturar um fundo para antecipar R$ 90 milhões em receitas, a SAF do clube busca transformar recebíveis futuros em liquidez imediata, usando uma estrutura com critérios de governança e lastro em receitas recorrentes.
A operação também mostra como os FIDCs podem ser aplicados em setores além do mercado empresarial tradicional, desde que exista receita futura verificável, documentação adequada e controle sobre os créditos cedidos.
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Autor
Mauro Morgan de Aguiar
Auditor Independente, economista, contador, pós graduado em auditoria, controladoria e perícia contábil, com mais de 30 anos de experiência na prestação de serviços de auditoria, assessoria administrativa e financeira, consultoria, perícia judicial e perícia civil, avaliação de ativos e controle patrimonial, a cooperativas, hospitais, operadores de planos de saúde, construtoras e empresas públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos:
Área Contábil: amplo domínio da lei 6.404/76, alterada pela Lei 11.638/07; alinhamento ao IRFS; Contabilidade Gerencial, de custos; Controladoria Financeira, Administração patrimonial, diagnósticos empresariais, consultoria de gestão de negócios; Auditoria Administrativa e Operacional; Assessoria e Consultoria em sociedades cooperativas; Impugnações fiscais a nível administrativo, acompanhamento de implantação de sistemas informatizados; Perícia contábil e Judicial; Palestrante em Faculdades.
Área Econômica: Planejamento estratégico; Projetos de financiamento junto ao BNDES; Estudo de viabilidade econômica/financeira; Avaliação patrimonial; Avaliação de Marcas e Perícias Econômicas.
Registrado no Conselho Regional de Contabilidade-CRC, Comissão de Valores Mobiliários- CVM, Instituto dos Auditores Independentes do Brasil-IBRACON, Organização das Cooperativas Brasileiras-OCB e Conselho Regional de Economia-CORECON.
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