Loja da Casas Bahia em preto e branco, com fachada azul, em notícia sobre dívida de R$ 4,8 bilhões no mercado de capitais.

Casas Bahia tem R$ 4,8 bilhões em dívidas no mercado de capitais

O Grupo Casas Bahia, que entrou com pedido de recuperação judicial, acumula R$ 4,8 bilhões em dívidas no mercado de crédito privado, segundo levantamento da Vitrify.

A maior parte da dívida da Casas Bahia está concentrada em debêntures. Dos oito instrumentos financeiros ativos analisados, 89,7% do saldo está distribuído em seis séries desses títulos.

O levantamento também mostra que o valor atual da dívida já supera de forma relevante o montante originalmente captado pela companhia.

Debêntures concentram quase 90% da dívida da Casas Bahia

Dos R$ 4,8 bilhões identificados no mercado de capitais, 89,7% estão concentrados em seis séries de debêntures.

Além desses títulos, a companhia também possui outros instrumentos financeiros ativos, incluindo um Certificado de Recebíveis Imobiliários, o CRI.

Segundo os dados levantados pela Vitrify, a distribuição inicial das debêntures teve participação relevante dos próprios coordenadores das ofertas.

A composição foi dividida da seguinte forma:

  • 46,7% ficaram inicialmente com os coordenadores;
  • 40,4% foram destinados a fundos de investimento;
  • 6,9% ficaram com pessoas jurídicas.

No CRI analisado, todos os investidores registrados eram fundos.

Maior parte da dívida vence apenas em 2050

Apesar do volume elevado, boa parte dos compromissos possui vencimento de longo prazo.

Cerca de R$ 3,64 bilhões, equivalentes a 75,8% do saldo devedor, estão concentrados em duas séries de debêntures com vencimento em novembro de 2050.

Esses papéis não possuem amortizações intermediárias.

Isso significa que principal e remuneração estão previstos para pagamento em parcela única no vencimento.

Dos aproximadamente R$ 1,16 bilhão restantes, praticamente todo o saldo vence até 2030.

Casas Bahia pediu recuperação judicial

A divulgação ocorre após o Grupo Casas Bahia apresentar pedido de recuperação judicial.

Ao comunicar a decisão, a companhia atribuiu a deterioração de sua situação financeira a uma combinação de fatores.

Entre eles estão:

  • juros elevados;
  • maior restrição de crédito;
  • aumento do custo financeiro;
  • pressão sobre o consumo;
  • necessidade maior de capital de giro;
  • dificuldade em avançar com alternativas para reforçar a liquidez.

Esse conjunto de fatores aumentou a pressão sobre a estrutura de capital da varejista.

Dívida atual supera valor originalmente captado

Outro dado relevante do levantamento é a diferença entre o montante captado inicialmente e o saldo devedor atual.

As emissões analisadas somaram cerca de R$ 3,83 bilhões.

Atualmente, porém, a dívida chega a aproximadamente R$ 4,8 bilhões.

Isso representa uma diferença de 25,3%.

O aumento decorre principalmente de:

  • atualização monetária;
  • juros;
  • encargos financeiros acumulados;
  • condições previstas nos instrumentos emitidos.

Nas três séries da 10ª emissão de debêntures, a diferença entre o valor captado e o saldo atual varia entre aproximadamente 35% e 37%.

Debêntures já eram negociadas com forte desconto

Antes mesmo do pedido de recuperação judicial, o mercado secundário já sinalizava deterioração na percepção de risco da companhia.

Em 2026, foram registrados 31 negócios envolvendo os títulos da Casas Bahia, totalizando R$ 361,1 milhões.

Os preços negociados variaram de 21,74% a 100,07% do valor nominal.

A mediana ponderada ficou em apenas 37% do valor de face.

Na prática, esse desconto indica que investidores já estavam exigindo uma compensação relevante para assumir o risco associado aos títulos.

Preço no mercado secundário sinalizou aumento de risco

Quando uma debênture é negociada muito abaixo de seu valor nominal, isso pode indicar uma percepção maior de risco de crédito por parte do mercado.

No caso da Casas Bahia, a queda dos preços ocorreu antes da recuperação judicial.

Esse comportamento mostra que o mercado secundário já vinha incorporando preocupações relacionadas à capacidade financeira da empresa.

Para gestores e investidores de crédito privado, o preço dos títulos pode funcionar como um importante sinal adicional de risco.

Fundos aparecem entre detentores dos títulos

O levantamento também analisou informações divulgadas à Comissão de Valores Mobiliários.

Entre as gestoras que aparecem como detentoras de debêntures da Casas Bahia estão:

  • Santander Brasil Gestão de Recursos;
  • BB Gestão de Recursos DTVM;
  • Valora Renda Fixa;
  • Norte Asset Management.

A Vitrify ressalta, porém, que essas informações possuem defasagem.

As carteiras dos fundos são divulgadas periodicamente à CVM, e os ativos podem ter sido vendidos depois da última data de referência.

Por isso, os dados não necessariamente representam a posição atual de cada gestora.

Levantamento mapeia dezenas de gestoras

A análise identificou 13 gestoras com carteiras atualizadas nos últimos 90 dias.

Outras 18 possuíam informações mais antigas.

Esse tipo de dado ajuda a dimensionar a exposição do mercado de fundos às debêntures da companhia, mas deve ser interpretado considerando o intervalo entre a data da carteira divulgada e a situação atual.

Recuperação judicial aumenta atenção sobre crédito privado

O caso da Casas Bahia chama atenção não apenas pelo tamanho da dívida, mas também pela relevância da companhia no mercado de capitais.

Empresas de grande porte costumam utilizar debêntures e outros instrumentos de crédito privado para financiar suas atividades, alongar passivos e diversificar fontes de funding.

Quando ocorre deterioração financeira, o impacto pode se espalhar por diferentes participantes, como:

  • fundos de investimento;
  • gestores;
  • bancos;
  • investidores institucionais;
  • securitizadoras;
  • demais credores.

Por isso, situações de recuperação judicial tendem a aumentar a atenção sobre avaliação de risco, concentração e qualidade dos ativos.

O que o caso da Casas Bahia mostra ao mercado?

A dívida da Casas Bahia evidencia como o volume nominal captado não é suficiente para avaliar sozinho o risco de uma operação.

Também é necessário observar:

  • custo financeiro acumulado;
  • cronograma de vencimentos;
  • liquidez dos títulos;
  • preço no mercado secundário;
  • capacidade de geração de caixa do emissor;
  • concentração por instrumento;
  • estrutura das garantias;
  • exposição dos investidores.

No caso da Casas Bahia, a forte queda de preço das debêntures antes do pedido de recuperação judicial já mostrava uma deterioração significativa da percepção de risco.

Mercado de capitais deve acompanhar próximos passos

A recuperação judicial deve abrir uma nova fase de negociação entre a companhia e seus credores.

Para investidores e gestores, será importante acompanhar como as debêntures e demais instrumentos serão tratados dentro da reestruturação.

Também merece atenção a evolução da liquidez dos títulos no mercado secundário e a atualização das posições dos fundos expostos aos papéis.

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Autor

Mauro Morgan de Aguiar
Auditor Independente, economista, contador, pós graduado em auditoria, controladoria e perícia contábil, com mais de 30 anos de experiência na prestação de serviços de auditoria, assessoria administrativa e financeira, consultoria, perícia judicial e perícia civil, avaliação de ativos e controle patrimonial, a cooperativas, hospitais, operadores de planos de saúde, construtoras e empresas públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos:

Área Contábil: amplo domínio da lei 6.404/76, alterada pela Lei 11.638/07; alinhamento ao IRFS; Contabilidade Gerencial, de custos; Controladoria Financeira, Administração patrimonial, diagnósticos empresariais, consultoria de gestão de negócios; Auditoria Administrativa e Operacional; Assessoria e Consultoria em sociedades cooperativas; Impugnações fiscais a nível administrativo, acompanhamento de implantação de sistemas informatizados; Perícia contábil e Judicial; Palestrante em Faculdades.

Área Econômica: Planejamento estratégico; Projetos de financiamento junto ao BNDES; Estudo de viabilidade econômica/financeira; Avaliação patrimonial; Avaliação de Marcas e Perícias Econômicas.

Registrado no Conselho Regional de Contabilidade-CRC, Comissão de Valores Mobiliários- CVM, Instituto dos Auditores Independentes do Brasil-IBRACON, Organização das Cooperativas Brasileiras-OCB e Conselho Regional de Economia-CORECON.

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