FIDC no agronegócio ganha força em 2026
O FIDC no agronegócio está ganhando espaço como alternativa para empresas que precisam financiar produção, vendas a prazo e capital de giro.
O movimento ocorre em um cenário de juros elevados, maior seletividade bancária e crescimento da procura por estruturas financeiras ligadas aos próprios recebíveis das empresas.
Entre janeiro e maio de 2026, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios captaram R$ 41,7 bilhões no mercado de capitais, segundo dados divulgados pela ANBIMA.
O volume representa uma alta de 36,5% em relação ao mesmo período de 2025. Embora os números contemplem toda a indústria de FIDCs, eles ajudam a mostrar o avanço desse instrumento no financiamento empresarial brasileiro.
Por que o FIDC no agronegócio está crescendo?
Empresas do agronegócio costumam operar com ciclos financeiros longos.
Muitas compram insumos, financiam clientes, produzem e comercializam mercadorias antes de receber integralmente pelas vendas realizadas.
Essa diferença entre pagar e receber aumenta a necessidade de capital de giro.
Nesse contexto, o FIDC permite transformar direitos creditórios futuros em recursos disponíveis para financiar a operação.
Entre os recebíveis que podem integrar uma estrutura estão:
- duplicatas de vendas a prazo;
- contratos comerciais;
- parcelas de financiamento;
- recebíveis de distribuidores;
- créditos contra compradores;
- outros direitos originados na cadeia agroindustrial.
A empresa pode ceder esses ativos ao fundo, que passa a financiar a antecipação dos recursos conforme as condições definidas na operação.
Crédito oficial cresce pouco em termos nominais
O Plano Safra 2026/2027 destinou R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial.
Desse total, R$ 384,9 bilhões foram direcionados a custeio e comercialização, enquanto R$ 140,2 bilhões ficaram destinados a investimentos.
Embora o volume seja elevado, o crescimento nominal limitado pode não acompanhar integralmente o aumento dos custos de produção e das necessidades financeiras do setor.
Isso ajuda a explicar por que empresas do agro buscam alternativas no mercado de capitais.
O FIDC não substitui necessariamente o crédito rural oficial. Ele pode funcionar como uma fonte complementar para operações que exigem:
- prazos personalizados;
- maior volume de recursos;
- financiamento recorrente;
- antecipação de vendas;
- estruturação baseada na carteira de recebíveis;
- menor dependência de uma única instituição bancária.
O que é um FIDC próprio?
Um FIDC próprio é estruturado para adquirir direitos creditórios originados por uma empresa ou por um grupo económico específico.
No agronegócio, esse modelo pode ser utilizado por companhias que vendem produtos, máquinas, insumos ou serviços a prazo.
Em vez de esperar os pagamentos dos clientes, a empresa transfere determinados recebíveis ao fundo e recebe os recursos conforme as regras da operação.
Na prática, o FIDC passa a funcionar como um braço financeiro estruturado da companhia.
Quais são as possíveis vantagens?
Quando bem estruturado, o modelo pode oferecer:
- maior previsibilidade de caixa;
- antecipação recorrente de receitas;
- diversificação das fontes de financiamento;
- condições adaptadas ao ciclo do negócio;
- redução da dependência bancária;
- acompanhamento mais detalhado da carteira;
- acesso ao mercado de capitais.
No entanto, a criação de um fundo não elimina os riscos da operação.
A qualidade dos recebíveis, a inadimplência, a concentração por devedor, as garantias e os controles internos continuam sendo fatores essenciais.
FIDC próprio não é apenas uma antecipação isolada
Uma antecipação pontual resolve uma necessidade específica de caixa.
Já um FIDC próprio pode ser estruturado como uma fonte recorrente de financiamento.
A empresa passa a organizar continuamente a originação, a cessão e o acompanhamento dos direitos creditórios.
Isso exige processos claros para:
- cadastrar clientes e devedores;
- comprovar a origem dos créditos;
- acompanhar vencimentos;
- controlar pagamentos;
- identificar atrasos;
- substituir recebíveis inelegíveis;
- conciliar os valores cedidos;
- prestar informações aos participantes da estrutura.
Por isso, a adoção de um FIDC representa uma mudança na forma como a empresa administra seu crédito comercial.
Centro-Oeste ganha destaque no crédito estruturado
O Centro-Oeste concentra uma parcela relevante da produção brasileira de grãos, da distribuição de insumos e das empresas ligadas às cadeias agropecuárias.
A distância dos principais centros financeiros deixou de ser uma barreira tão significativa devido à digitalização dos processos.
Hoje, diversas etapas podem ser realizadas por meio de plataformas integradas, como:
- envio de documentos;
- análise de recebíveis;
- acompanhamento de carteiras;
- monitoramento de garantias;
- conciliação financeira;
- geração de relatórios;
- comunicação com gestores e prestadores de serviços.
A combinação entre produção em grande escala, necessidade de capital e digitalização favorece o desenvolvimento de estruturas locais de crédito.
Caso da Audax reforça avanço no interior
A Audax Capital é um exemplo de gestora localizada no Centro-Oeste que expandiu sua atuação com crédito estruturado.
Informações divulgadas sobre a empresa apontam crescimento de 115% nos recursos administrados entre 2024 e 2025, chegando a aproximadamente R$ 650 milhões.
O grupo também atua com FIDCs e securitização, com parte relevante das operações ligada ao agronegócio.
O caso mostra como estruturas de crédito estão se desenvolvendo fora dos centros financeiros tradicionais.
Qual é a relação entre FIDC e Fiagro?
FIDC e Fiagro não são sinónimos.
O FIDC é uma categoria de fundo voltada principalmente à aquisição de direitos creditórios.
O Fiagro, por sua vez, é um veículo destinado ao investimento nas cadeias produtivas agroindustriais e pode assumir diferentes formatos.
Um Fiagro pode, por exemplo, adotar uma estrutura relacionada a direitos creditórios, respeitando as regras aplicáveis à sua política de investimentos.
A indústria de Fiagros também cresceu de forma significativa. Segundo dados divulgados pela CVM, o património líquido do setor avançou de forma expressiva nos últimos anos.
Por que os investidores observam esses fundos?
Para o investidor, o interesse está na exposição a operações de crédito ligadas à economia real.
Os recursos podem financiar empresas que produzem, distribuem ou comercializam bens e serviços no agronegócio.
Entre os fatores analisados estão:
- qualidade dos recebíveis;
- perfil dos devedores;
- histórico de pagamento;
- garantias;
- concentração da carteira;
- subordinação das cotas;
- prazo das operações;
- capacidade do gestor;
- critérios de elegibilidade.
O facto de um fundo possuir recebíveis como lastro não significa ausência de risco.
Problemas climáticos, variações de preços, dificuldades dos compradores, concentração regional e falhas operacionais podem afetar o desempenho da carteira.
Quais empresas podem utilizar um FIDC no agro?
O modelo pode fazer sentido para empresas que originam um volume recorrente de recebíveis.
Entre elas estão:
- distribuidoras de insumos;
- concessionárias de máquinas agrícolas;
- cooperativas;
- cerealistas;
- tradings;
- empresas de armazenagem;
- indústrias de alimentos;
- fornecedores de equipamentos;
- companhias de logística;
- empresas que financiam sua rede de clientes.
A viabilidade depende do volume, da qualidade e da previsibilidade dos créditos originados.
Empresas com poucos recebíveis, baixa padronização documental ou elevada concentração podem ter mais dificuldade para justificar a estrutura.
Quais controles uma empresa precisa manter?
Antes de estruturar um fundo, a empresa precisa demonstrar que os direitos creditórios existem e podem ser acompanhados.
Originação dos recebíveis
A empresa deve comprovar como cada crédito foi gerado, incluindo contrato, nota fiscal, pedido, entrega ou outro documento de suporte.
Elegibilidade
Nem todo recebível precisa ser aceite pelo fundo.
A operação pode estabelecer critérios relacionados a prazo, valor, devedor, concentração e histórico de pagamento.
Conciliação
Os valores cedidos, pagos, vencidos e em atraso precisam ser conciliados com frequência.
Inadimplência
A empresa e os prestadores do fundo devem acompanhar atrasos e definir os procedimentos de cobrança.
Informações contábeis
A cessão dos direitos creditórios e os custos da operação precisam ser registados de maneira compatível com sua natureza.
Crescimento aumenta a responsabilidade operacional
O avanço dos FIDCs no agronegócio cria oportunidades, mas também aumenta as exigências de governança.
Uma estrutura recorrente envolve diferentes participantes, como:
- originador;
- cedente;
- gestor;
- administrador;
- custodiante, quando aplicável;
- registradora;
- auditoria;
- investidores;
- assessores jurídicos;
- prestadores de serviços.
A qualidade das informações partilhadas entre esses agentes influencia o funcionamento da operação.
Falhas em documentos, cadastros ou conciliações podem provocar atrasos, divergências e dificuldades na prestação de informações.
Contabilidade precisa acompanhar a estrutura
A utilização de um FIDC no agronegócio afeta a rotina contábil e financeira da empresa originadora.
É necessário avaliar corretamente:
- reconhecimento das receitas;
- baixa ou manutenção dos recebíveis;
- natureza da cessão;
- custos financeiros;
- retenção de riscos;
- conciliação das operações;
- prestação de informações;
- efeitos tributários;
- impacto no fluxo de caixa.
O tratamento pode variar conforme as condições contratuais e a transferência efetiva dos riscos e benefícios.
Por isso, não basta observar apenas a entrada de recursos no caixa.
A empresa precisa entender como a operação afeta seu resultado, seus ativos e suas obrigações.
Leia também: MAG amplia atuação em FIDCs com aquisição bilionária
O que esperar para os próximos meses?
O mercado deve acompanhar se o ritmo de captação dos FIDCs continuará no segundo semestre de 2026.
Também será importante observar:
- lançamento de novos fundos voltados ao agro;
- crescimento dos FIDCs próprios;
- evolução da inadimplência;
- comportamento dos juros;
- disponibilidade do crédito rural;
- procura dos investidores;
- avanço dos Fiagros;
- uso de tecnologia no monitoramento das carteiras.
O cenário indica que o crédito estruturado está se tornando uma alternativa mais recorrente, e não apenas uma solução temporária em períodos de restrição bancária.
Para acompanhar dados oficiais sobre veículos ligados ao agronegócio, consulte os conteúdos da CVM sobre Fiagro e mercado de capitais.
Conclusão
O FIDC no agronegócio ganhou relevância como uma ferramenta para financiar empresas, antecipar recebíveis e diversificar as fontes de recursos.
A expansão ocorre num ambiente de crédito bancário seletivo, juros elevados e necessidade crescente de capital de giro.
Entretanto, estruturar um fundo exige mais do que reunir recebíveis. A empresa precisa manter documentação, controles, conciliações, governança e informações contábeis consistentes.
A ContabilizaíBank atua com contabilidade para empresas do mercado de capitais e crédito, apoiando organizações que precisam estruturar suas rotinas contábeis, fiscais e financeiras.
Continue acompanhando nosso blog para mais conteúdos atualizados.
Autor: Mauro Morgan de Aguiar
Auditor Independente, economista, contador, pós graduado em auditoria, controladoria e perícia contábil, com mais de 30 anos de experiência na prestação de serviços de auditoria, assessoria administrativa e financeira, consultoria, perícia judicial e perícia civil, avaliação de ativos e controle patrimonial, a cooperativas, hospitais, operadores de planos de saúde, construtoras e empresas públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos:
Área Contábil: amplo domínio da lei 6.404/76, alterada pela Lei 11.638/07; alinhamento ao IRFS; Contabilidade Gerencial, de custos; Controladoria Financeira, Administração patrimonial, diagnósticos empresariais, consultoria de gestão de negócios; Auditoria Administrativa e Operacional; Assessoria e Consultoria em sociedades cooperativas; Impugnações fiscais a nível administrativo, acompanhamento de implantação de sistemas informatizados; Perícia contábil e Judicial; Palestrante em Faculdades.
Área Econômica: Planejamento estratégico; Projetos de financiamento junto ao BNDES; Estudo de viabilidade econômica/financeira; Avaliação patrimonial; Avaliação de Marcas e Perícias Econômicas.
Registrado no Conselho Regional de Contabilidade-CRC, Comissão de Valores Mobiliários- CVM, Instituto dos Auditores Independentes do Brasil-IBRACON, Organização das Cooperativas Brasileiras-OCB e Conselho Regional de Economia-CORECON.
Compartilhe:

Proteja seu patrimônio
Garanta segurança e planejamento para seu patrimônio. Clique e descubra como abrir sua holding!















Deixe um comentário