Crédito privado tem alta nas debêntures comuns e recuo nas incentivadas em julho
O mercado de crédito privado registrou movimentos distintos em julho.
Segundo dados da Quantum Finance, o volume negociado com debêntures comuns cresceu 20% em relação a junho, enquanto as debêntures incentivadas tiveram queda de 22,4% no mesmo período.
Entre os certificados, os CRIs avançaram 8% em volume negociado e os CRAs cresceram 9,4%.
Apesar da alta nas debêntures comuns, parte relevante desse movimento teve origem em uma operação específica: a recompra de títulos antigos pela Localiza.
Recompra da Localiza impulsionou volume das debêntures comuns
A Localiza teve forte presença entre os papéis mais negociados do mês.
A companhia ocupou quatro das dez primeiras posições no ranking de debêntures por volume financeiro e, considerando a Total Fleet, empresa do mesmo grupo, chegou a cinco posições entre as maiores movimentações.
No fim de junho e início de julho, a Localiza aprovou uma emissão de R$ 8 bilhões, com destinação prioritária para a aquisição facultativa de debêntures antigas da própria companhia.
Esse movimento elevou significativamente o volume negociado.
Por isso, analistas ouvidos pela fonte original destacam que parte da alta observada nas debêntures comuns não representa necessariamente um crescimento orgânico da negociação no mercado secundário.
Debêntures incentivadas continuam atraindo investidores pessoa física
Embora tenham registrado queda no volume financeiro, as debêntures incentivadas continuaram com forte participação em número de negócios.
Papéis de empresas como Engie, Axia Energia, Sabesp, Vibra e Vale apareceram entre os mais negociados.
Esse movimento está relacionado, em grande parte, à presença do investidor pessoa física.
As debêntures incentivadas, amparadas pela Lei nº 12.431, contam com isenção de imposto de renda para pessoas físicas em determinadas condições, o que aumenta sua atratividade para o varejo.
Na prática, o mercado registrou um número elevado de transações menores, mantendo essas emissões entre as mais negociadas em quantidade de operações, mesmo com menor volume financeiro agregado.
CRAs avançam com destaque para setor sucroenergético e proteína animal
No mercado de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), o volume negociado também cresceu.
A Cocal Canaã liderou o ranking financeiro, com aproximadamente R$ 701 milhões, seguida por operações ligadas à Minerva e à Jalles Machado.
Por número de negócios, Seara Alimentos e São Martinho apareceram entre os principais destaques.
A concentração reflete um período de maior emissão de títulos por empresas dos setores sucroenergético e de proteínas.
Esses segmentos vêm utilizando o mercado de capitais como alternativa para financiar expansão, investimentos e reorganização financeira.
Movimento nos CRAs também reflete percepção de risco
O aumento das negociações não significa necessariamente maior procura pelos títulos.
Em alguns casos, a movimentação também pode estar relacionada à decisão de investidores de reduzir exposição a determinadas empresas.
A Minerva, por exemplo, vem enfrentando desafios ligados ao mercado internacional de carnes.
Já a Cocal passou por aumento de endividamento após investimentos e expansão de operações.
Nesse tipo de cenário, o aumento do volume negociado pode refletir tanto entrada de novos investidores quanto saída de quem decidiu reduzir risco.
CRIs cresceram 8% no mês
Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) também apresentaram avanço em julho.
O volume negociado cresceu 8% na comparação com junho.
Entre os destaques por volume financeiro apareceram operações ligadas à Even, BM Varejo e Botafogo Participações.
Já por número de negócios, a Allos liderou com ampla vantagem, seguida pelo fundo imobiliário do Faria Lima Financial Center e pela Dasa.
Emissões recentes ajudam a explicar giro dos CRIs
Parte do movimento dos CRIs está relacionada a emissões recentes.
Ativos novos, especialmente aqueles com volume relevante e boas classificações de crédito, costumam apresentar maior negociação nos primeiros meses após a emissão.
Isso acontece porque coordenadores, fundos e investidores ajustam suas posições e redistribuem os papéis no mercado secundário.
No caso da Allos, por exemplo, uma emissão de R$ 1 bilhão concluída no fim de abril passou a apresentar forte giro nos meses seguintes.
Crédito privado enfrenta ambiente de juros elevados
O comportamento observado em julho acontece em um contexto mais amplo de juros elevados.
Quando os títulos públicos oferecem retornos altos, parte relevante dos recursos dos investidores tende a migrar para ativos soberanos.
Esse efeito reduz a disponibilidade de capital para empresas no mercado privado.
Na prática, companhias passam a enfrentar mais dificuldade para captar recursos e, em muitos casos, precisam reduzir endividamento, preservar caixa ou reorganizar operações.
Mercado mostra movimento de desalavancagem
Ao longo do primeiro semestre, várias empresas passaram a priorizar estratégias de redução de dívida.
Algumas buscaram reestruturações internas.
Outras passaram a concentrar esforços na geração de caixa.
Também houve casos de empresas que recorreram a processos de recuperação judicial.
Nesse ambiente, os gestores passam a ajustar suas carteiras de forma mais ativa.
Papéis que se valorizaram podem ser vendidos para realização de ganhos.
Já ativos percebidos como mais arriscados podem sofrer redução de posição.
Mercado primário também teve comportamento desigual
No mercado primário, os dados de julho também mostram diferenças importantes entre os instrumentos.
As emissões de:
- debêntures comuns cresceram 43% em relação a junho;
- debêntures incentivadas avançaram 14%;
- CRIs recuaram 62%;
- CRAs caíram 49%.
Ou seja, enquanto as debêntures ganharam força nas novas emissões, os certificados de recebíveis tiveram retração relevante.
O que os dados mostram sobre o mercado de crédito privado?
Os números de julho mostram um mercado com comportamento bastante heterogêneo.
A alta nas debêntures comuns foi influenciada por operações específicas, enquanto as incentivadas continuaram relevantes entre investidores pessoa física.
Nos CRIs e CRAs, o crescimento do volume negociado conviveu com movimentos de ajuste de risco e redistribuição de papéis.
Ao mesmo tempo, o mercado primário mostrou preferência maior pelas debêntures, enquanto as emissões de certificados recuaram.
Esse cenário reforça que o crédito privado passa por um período de maior seletividade.
Juros elevados, percepção de risco, qualidade de crédito e estrutura das emissões estão influenciando de forma direta o comportamento de investidores e empresas.
A ContabilizaíBank acompanha os principais movimentos do mercado de capitais e crédito, trazendo informações sobre emissões, negociações e tendências que impactam empresas e investidores.
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Autor
Mauro Morgan de Aguiar
Auditor Independente, economista, contador, pós graduado em auditoria, controladoria e perícia contábil, com mais de 30 anos de experiência na prestação de serviços de auditoria, assessoria administrativa e financeira, consultoria, perícia judicial e perícia civil, avaliação de ativos e controle patrimonial, a cooperativas, hospitais, operadores de planos de saúde, construtoras e empresas públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos:
Área Contábil: amplo domínio da lei 6.404/76, alterada pela Lei 11.638/07; alinhamento ao IRFS; Contabilidade Gerencial, de custos; Controladoria Financeira, Administração patrimonial, diagnósticos empresariais, consultoria de gestão de negócios; Auditoria Administrativa e Operacional; Assessoria e Consultoria em sociedades cooperativas; Impugnações fiscais a nível administrativo, acompanhamento de implantação de sistemas informatizados; Perícia contábil e Judicial; Palestrante em Faculdades.
Área Econômica: Planejamento estratégico; Projetos de financiamento junto ao BNDES; Estudo de viabilidade econômica/financeira; Avaliação patrimonial; Avaliação de Marcas e Perícias Econômicas.
Registrado no Conselho Regional de Contabilidade-CRC, Comissão de Valores Mobiliários- CVM, Instituto dos Auditores Independentes do Brasil-IBRACON, Organização das Cooperativas Brasileiras-OCB e Conselho Regional de Economia-CORECON.
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