Entregador de aplicativo em cenário urbano com moedas azuis representando o crescimento dos FIDCs

Apps de entrega e e-commerce aceleram FIDCs e superam R$ 27 bi

Os FIDCs de apps de entrega e e-commerce ganharam escala no primeiro semestre, acompanhando a expansão das operações de crédito de plataformas de delivery, marketplaces, varejo e mobilidade.

Um levantamento identificou 18 fundos ligados a iFood, Shopee, Mercado Livre, 99, Rappi e Magazine Luiza. Juntas, as carteiras de crédito dessas estruturas passaram de R$ 19,6 bilhões em dezembro para R$ 27,3 bilhões em junho.

O avanço de quase 40% em seis meses mostra como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios estão se tornando uma fonte relevante de financiamento para empresas que oferecem crédito a consumidores, restaurantes, vendedores e outros parceiros.

Como os FIDCs são utilizados pelas plataformas?

Os FIDCs captam recursos de investidores para adquirir direitos creditórios, como valores a receber de vendas, financiamentos, empréstimos e prestações de serviços.

Segundo o Portal do Investidor da Comissão de Valores Mobiliários, os FIDCs investem em direitos creditórios originados de operações realizadas por empresas e outras entidades.

Nos aplicativos e marketplaces, os recursos podem ser utilizados para:

  • financiar compras feitas pelos consumidores;
  • oferecer empréstimos pessoais;
  • antecipar recebíveis de restaurantes;
  • conceder capital de giro a vendedores;
  • financiar parceiros cadastrados nas plataformas;
  • adquirir créditos gerados dentro do próprio ecossistema.

Em parte dessas operações, as plataformas atuam como correspondentes bancários e utilizam instituições financeiras parceiras para realizar a concessão do crédito.

O FIDC funciona como uma fonte de recursos para sustentar a expansão dessas carteiras.

Carteiras avançam quase 40% em seis meses

Os 18 fundos analisados somavam R$ 19,6 bilhões em carteira de crédito no fim de dezembro.

Em junho, o volume chegou a R$ 27,3 bilhões, representando crescimento de quase 40% no primeiro semestre.

Esse aumento reflete a transformação de aplicativos e marketplaces em ecossistemas que vão além da intermediação de vendas ou serviços.

As plataformas passaram a reunir diferentes soluções financeiras:

  • meios de pagamento;
  • antecipação de recebíveis;
  • empréstimos;
  • financiamento de compras;
  • capital de giro;
  • serviços financeiros para parceiros.

A grande quantidade de dados gerados dentro desses ambientes também pode apoiar a análise de crédito e a definição de limites para consumidores e empresas.

iFood capta R$ 600 milhões com FIDC

O iFood concluiu uma oferta de R$ 600 milhões em cotas seniores de um de seus fundos de crédito.

Antes da nova captação, a companhia já possuía cinco FIDCs, que somavam aproximadamente R$ 3,2 bilhões em patrimônio líquido até junho.

O reforço deve ampliar ainda mais a capacidade financeira das estruturas ligadas à plataforma.

Os fundos do iFood atendem a diferentes modelos de operação. Um dos principais está relacionado à aquisição de recebíveis que restaurantes parceiros já possuem por vendas realizadas dentro do aplicativo.

FIDC IFOOD I apresenta inadimplência zero

O FIDC IFOOD I era o maior fundo individual entre os veículos analisados, com cerca de R$ 1,4 bilhão em patrimônio líquido em junho.

A estrutura encerrou o período sem inadimplência.

Isso acontece porque o fundo adquire valores que os restaurantes já têm a receber por vendas feitas por cartão, Pix ou vale-refeição.

Esses recursos estão apenas aguardando o prazo de repasse dentro do sistema de pagamento. Dessa forma, o fundo antecipa um recebível já originado, em vez de conceder um empréstimo convencional ao restaurante.

Esse modelo apresenta um perfil diferente de risco em relação a carteiras de empréstimo pessoal ou financiamento sem recebíveis imediatamente vinculados.

Shopee lidera entre as estruturas analisadas

Os fundos relacionados à Shopee reuniam aproximadamente R$ 11,1 bilhões em carteira.

O volume cresceu 78% durante o semestre, maior avanço percentual entre as estruturas de porte relevante incluídas no levantamento.

O resultado mostra como empresas de comércio eletrônico estão utilizando FIDCs para financiar consumidores e vendedores dentro de seus próprios ecossistemas.

Um dos fundos mencionados é o MONEE FIC, que investe em cotas de outros veículos ligados à companhia. Como não possui uma carteira própria de crédito, sua estrutura não registra inadimplência da mesma forma que um fundo que concede empréstimos ou adquire recebíveis diretamente.

Mercado Livre prepara um novo fundo

Os FIDCs ligados ao Mercado Livre somavam cerca de R$ 5,7 bilhões em patrimônio líquido no fim de junho, avanço próximo de 12% em comparação com o início do ano.

A empresa também constituiu o Mercado Crédito III Brasil FIDC em maio. No momento analisado, o veículo ainda não apresentava operação ou patrimônio relevante nos informes enviados à Comissão de Valores Mobiliários.

O intervalo entre a constituição do fundo e o início da captação é comum. Antes da oferta inicial, é necessário preparar a estrutura operacional e documental.

Esse processo pode envolver:

  • abertura de contas;
  • contratação de prestadores;
  • preparação de documentos;
  • registro da oferta;
  • definição dos critérios da carteira;
  • organização dos controles internos.

Além dos FIDCs, o Mercado Livre também utiliza outros instrumentos de captação para financiar suas operações de crédito.

Rappi cresce sobre uma base menor

O Moustache Rappi passou de R$ 25,7 milhões para R$ 68,1 milhões em patrimônio líquido durante o período analisado.

O crescimento percentual foi elevado, mas ocorreu sobre uma base menor em comparação com as estruturas de Shopee, iFood e Mercado Livre.

O fundo compra faturas que uma empresa ligada à Rappi tem a receber da própria companhia por serviços já realizados.

Por adquirir créditos relacionados a serviços já prestados, o veículo também encerrou junho sem inadimplência.

Magalu registra redução no patrimônio

O Magazine Luiza foi a única empresa do levantamento que apresentou redução no patrimônio de sua estrutura.

O patrimônio do FIDC Magalu I diminuiu aproximadamente 4% durante o semestre.

Em junho, o fundo apresentava R$ 71,2 milhões em créditos inadimplentes, enquanto seu patrimônio líquido era de R$ 46,6 milhões.

Esses números não devem ser avaliados isoladamente. Uma análise completa precisa considerar outros elementos, como:

  • carteira bruta do fundo;
  • nível de provisões;
  • subordinação das cotas;
  • garantias disponíveis;
  • recuperação dos créditos;
  • regras de elegibilidade;
  • concentração de devedores.

Inadimplência dos fundos chega a R$ 3,7 bilhões

Excluindo as estruturas cuja inadimplência é considerada estruturalmente zerada, os 15 fundos restantes registraram aumento dos créditos em atraso.

O volume de inadimplência passou de R$ 2,9 bilhões em dezembro para R$ 3,7 bilhões em junho.

O valor representava 16,6% da carteira bruta somada desses veículos.

A expansão demonstra que o crescimento das operações de crédito também precisa ser acompanhado por controles de risco, provisões e mecanismos de proteção.

Fundos ligados à 99 concentram a alta

Os veículos relacionados à 99 apresentaram o maior crescimento de inadimplência entre as plataformas analisadas.

Os fundos GONN, GONN II e GONN III acrescentaram aproximadamente R$ 590 milhões em créditos inadimplentes entre dezembro e junho.

Esse montante representou cerca de 75% do aumento total de R$ 791 milhões observado nos 18 fundos do levantamento.

GONN mais que dobra a inadimplência

No GONN, maior e mais antigo fundo do grupo, o volume inadimplente passou de R$ 337,8 milhões para R$ 702,3 milhões.

Já o GONN II encerrou junho com R$ 803,7 milhões em inadimplência, o maior valor absoluto entre os fundos analisados.

A existência de créditos inadimplentes, porém, não significa automaticamente que o fundo não conseguirá cumprir suas obrigações.

Também é necessário avaliar:

  • provisões para perdas;
  • qualidade das garantias;
  • estrutura de subordinação;
  • capacidade de recuperação;
  • prazo dos créditos;
  • concentração da carteira;
  • critérios utilizados na concessão.

Provisões acompanham a expansão do crédito

As provisões constituídas pelos fundos para cobrir possíveis perdas aumentaram de R$ 4,6 bilhões para R$ 6,2 bilhões.

A alta foi de aproximadamente 35%, ritmo semelhante ao crescimento das carteiras.

Nos 15 fundos considerados nesse recorte, as provisões correspondiam a 27,9% da carteira bruta em junho. Em dezembro, a proporção era de 28,1%.

A estabilidade percentual indica que a expansão do crédito foi acompanhada pela constituição de reservas para perdas esperadas.

A suficiência dessas provisões, entretanto, dependerá do comportamento futuro das carteiras e da recuperação dos créditos inadimplentes.

O modelo de recebível influencia o risco do FIDC

Os FIDCs de apps de entrega e e-commerce não seguem um único modelo de operação.

Alguns fundos antecipam valores de vendas já realizadas. Outros financiam consumidores, vendedores, restaurantes ou prestadores de serviços.

Por isso, o risco pode variar de acordo com:

  • a origem dos direitos creditórios;
  • o perfil dos devedores;
  • o prazo das operações;
  • a existência de recebíveis já constituídos;
  • os critérios de concessão;
  • as garantias disponíveis;
  • o nível de concentração;
  • a qualidade dos dados utilizados.

Um fundo que compra recebíveis de vendas já processadas tende a apresentar um comportamento diferente de uma estrutura formada por empréstimos pessoais.

Comparar apenas o patrimônio líquido ou a rentabilidade pode produzir uma visão incompleta.

Dados das plataformas apoiam a análise de crédito

Apps e marketplaces possuem grandes volumes de informações sobre consumidores e parceiros cadastrados.

Esses dados podem incluir:

  • histórico de vendas;
  • volume de pedidos;
  • frequência das transações;
  • faturamento;
  • cancelamentos;
  • avaliações;
  • recebíveis futuros;
  • comportamento de pagamento;
  • sazonalidade das operações.

As informações podem ajudar a definir limites, avaliar riscos e acompanhar o desempenho das carteiras.

Mesmo assim, os modelos de crédito precisam ser monitorados constantemente. Mudanças econômicas e comportamentais podem alterar a capacidade de pagamento dos clientes e reduzir a precisão das análises anteriores.

Crescimento dos FIDCs exige mais governança

A expansão das carteiras aumenta a importância da governança e da qualidade das informações compartilhadas entre os participantes da estrutura.

Uma operação pode envolver:

  • plataforma ou originador;
  • correspondente bancário;
  • instituição financeira;
  • gestor;
  • administrador fiduciário;
  • custodiante;
  • registradora;
  • auditoria;
  • empresas de cobrança;
  • investidores.

Falhas em registros, conciliações ou controles podem afetar a composição da carteira, a apuração da inadimplência, o cálculo das provisões e a prestação de informações aos investidores.

Contabilidade acompanha estruturas mais complexas

O crescimento dos FIDCs ligados a empresas de tecnologia também amplia a complexidade contábil, fiscal e operacional das estruturas.

Entre os pontos que exigem atenção estão:

  • reconhecimento dos direitos creditórios;
  • contabilização das cessões;
  • conciliação das carteiras;
  • registro das provisões;
  • classificação dos ativos;
  • reconhecimento de perdas;
  • controle das cotas;
  • elaboração das demonstrações financeiras;
  • cumprimento das obrigações regulatórias;
  • tratamento tributário das operações.

Para as empresas que originam ou cedem os créditos, também é necessário analisar os efeitos sobre receitas, ativos, custos financeiros e fluxo de caixa.

Leia também: FIDC no agronegócio ganha força em 2026

O que o avanço representa para o mercado?

O crescimento das carteiras mostra que apps de entrega, marketplaces e plataformas de mobilidade estão se tornando participantes cada vez mais relevantes do mercado de crédito.

Os FIDCs permitem transformar recebíveis e operações financeiras originadas dentro desses ecossistemas em ativos financiados por investidores.

A tendência apresentada na notícia é que novas estruturas sejam lançadas e que os fundos já existentes continuem ampliando suas carteiras.

Ao mesmo tempo, o aumento da inadimplência em alguns veículos reforça a necessidade de acompanhar:

  • a qualidade dos créditos;
  • as provisões constituídas;
  • os mecanismos de proteção;
  • a concentração das carteiras;
  • a maturação das operações;
  • a qualidade da governança.

Conclusão

Os FIDCs de apps de entrega e e-commerce superaram R$ 27 bilhões em carteira e passaram a ocupar um papel importante no financiamento de consumidores, restaurantes, vendedores e outros parceiros.

Shopee, iFood e Mercado Livre aparecem entre as maiores estruturas analisadas. Por outro lado, os fundos ligados à 99 concentraram parte relevante do aumento recente da inadimplência.

O avanço demonstra o potencial dos FIDCs como instrumento de financiamento, mas também evidencia a necessidade de controles contábeis, gestão de risco, provisões adequadas e informações confiáveis.

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Autor: 

Mauro Morgan de Aguiar
Auditor Independente, economista, contador, pós graduado em auditoria, controladoria e perícia contábil, com mais de 30 anos de experiência na prestação de serviços de auditoria, assessoria administrativa e financeira, consultoria, perícia judicial e perícia civil, avaliação de ativos e controle patrimonial, a cooperativas, hospitais, operadores de planos de saúde, construtoras e empresas públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos:

Área Contábil: amplo domínio da lei 6.404/76, alterada pela Lei 11.638/07; alinhamento ao IRFS; Contabilidade Gerencial, de custos; Controladoria Financeira, Administração patrimonial, diagnósticos empresariais, consultoria de gestão de negócios; Auditoria Administrativa e Operacional; Assessoria e Consultoria em sociedades cooperativas; Impugnações fiscais a nível administrativo, acompanhamento de implantação de sistemas informatizados; Perícia contábil e Judicial; Palestrante em Faculdades.

Área Econômica: Planejamento estratégico; Projetos de financiamento junto ao BNDES; Estudo de viabilidade econômica/financeira; Avaliação patrimonial; Avaliação de Marcas e Perícias Econômicas.

Registrado no Conselho Regional de Contabilidade-CRC, Comissão de Valores Mobiliários- CVM, Instituto dos Auditores Independentes do Brasil-IBRACON, Organização das Cooperativas Brasileiras-OCB e Conselho Regional de Economia-CORECON.

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